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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Com suas letras desbocadas e denúncias de relações sexuais anônimas nos bailes, o funk incomoda até mentalidades liberais



"Engravidei do trenzinho"

Com suas letras desbocadas e denúncias de relações sexuais anônimas nos bailes, o funk incomoda até mentalidades liberais



Marcelo Camacho e Marcelo Carneiro


Montagem sobre fotos Oscar Cabral

Meninas de top e cintura baixa se esbaldam em barracões da periferia, aonde chegam preparadas para "dar beijo na boca": funk por toda parte




Invenção de carioca, pobre, da periferia, o funk permaneceu confinado nessas três dimensões por vários anos. Ocasionalmente se falava nas brigas de gangues, no ritmo alucinado, na música ensurdecedora e nas multidões de jovens que, a cada fim de semana, lotavam bailes em barracões indigentes. Do Carnaval para cá, o funk transbordou seus limites sociais e geográficos. A reboque veio a disseminação da lascívia exacerbada, que é sua marca registrada: músicas com letras descaradamente chulas, coreografias indecentes, roupas agarradas e decotadas, suor e pegação. Às massas rebolativas dos bailes do Castelo das Pedras, em plena favela, ou da quadra do Salgueiro, juntaram-se garotos e garotas bem tratados, vestidos com roupas de grife, loucos para aderir ao funk. Até socialites, muitas já entradas em anos e operações plásticas, subiram no bonde. Em boates da Zona Sul, as noites funkeiras são as mais animadas, e um esforço concentrado de "empresários do funk" faz de tudo para levar o ritmo a São Paulo e outras praças. O vocabulário vulgar (popozuda, cachorra) incorporou-se ao cotidiano. Tardes inteiras na televisão são dedicadas ao funk, com as câmaras pegando ângulos já chamados comumente de ginecológicos. Até em festinha de criança ecoam suas músicas – e só quem passou os últimos três meses no espaço sideral ainda não ouviu alguma dessas baixarias.

Na mais famosa de todas, em altos brados, o célebre Tigrão avisa que vai jogar a menina na cama e "dar muita pressão", o que na gíria funkeira significa fazer sexo. Em outra, a MC Beth (nada a ver com o quase homônimo shakespeariano) garante que "só um tapinha não dói" – aplicado no bumbum, como mostra a coreografia da música. Mais um funk de sucesso, este de Vanessinha Pikachu, manifesta o desejo de pegar seu par e "ir para o hotel, pra brincar com o pikachu", que nesse caso definitivamente não se trata do Pokémon amarelinho. Fora as letras de cunho sexual, a música funkeira trata a mulher como, bem, como cachorro. "Me chama de cachorra que eu faço au au", canta Tati Quebra-Barraco no funkCachorra Chapa Quente (para quem não sabe, "chapa quente" quer dizer pronta para transar).

Dança da cadeira – A associação entre danças de alto conteúdo erótico (a rigor, todas, desde o mais sublime pas de deux do balé clássico) e respostas escandalizadas tem um longo histórico. No Brasil, já envolveu praticamente de tudo – gafieira, samba, forró, xote, umbigada, lambada, modalidades que posteriormente avançaram para o terreno mais explícito ainda da dança da garrafa, do tchan e congêneres. As reações a elas costumam dividir o mundo em dois grupos. Os jovens, liberais, modernos ou simplesmente tolerantes geralmente adoram. Os mais velhos, conservadores, antigos ou abertamente reacionários detestam. O furor funkeiro está embaralhando um pouco esse quadro. No começo do mês, ultrapassou o terreno da discussão habitual ("Onde é que isso vai parar? Será que tem limite?") e entrou no campo da saúde pública em razão de um abuso inusitado: duas menores, no Rio, afirmaram ter engravidado ao fazer sexo com vários parceiros, em pleno baile, em pleno salão, em pleno anonimato.



Marcus Mendonça

A vereadora Verônica, "mãe loira do funk", acompanhada do filho Jonathan: aos 7 anos, ele canta que quer um "filé com popozão"





A informação foi divulgada pelo secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Sérgio Arouca, com base nos depoimentos de garotas atendidas em dois hospitais. "É comum, em casos de gravidez de adolescentes, perguntarmos quem é o pai da criança. As duas meninas disseram que não sabiam quem era o pai porque haviam mantido relações com vários meninos durante um baile funk", disse Arouca. A modalidade deu até origem a uma expressão: "engravidei do trenzinho", referência aos movimentos de dança coletiva que dispensam explicações. Uma das jovens grávidas também é portadora do vírus da Aids, motivo de alarme muito maior. "A história é gravíssima e nos preocupa. Se for uma prática constante, a possibilidade de gravidez indesejada e de contaminação por doenças sexualmente transmissíveis, além da Aids, é uma coisa fantástica", alertou o secretário de Saúde. Detalhe: Arouca é um médico e pesquisador respeitado, com impecáveis credenciais de esquerda (pertenceu ao Partido Comunista até 1991, quando saiu para seu substituto pós-Muro, o PPS) e não um ferrabrás direitista disposto a caluniar uma diversão popular.

Filé com popozão – O caso da "gravidez do trenzinho" deu alento a uma vaga – e, até agora, inócua – reação antifunk. Também abriu uma série de perguntas de difícil resposta. Afinal, jovens fazem sexo durante um baile funk? As meninas sentam-se, sem calcinha, no colo dos rapazes numa versão explícita da dança das cadeiras e daí as ocorrências de paternidade anônima? Pior ainda, são constrangidas a aderir ao sexo coletivo por pressão social, para serem aceitas nas turmas, chamadas de "bondes"? Sexo praticado abertamente não se vê nos bailes, pelo menos aos olhos de testemunhas de fora do ambiente. O trenzinho é parecido com o iniciado na cultura clubber: ao som da música ensurdecedora, rapazes e moças se esfregam no meio do salão. Na versão mais ostensiva da dança das cadeiras, as meninas "apenas" simulam o ato sexual diante dos tigrões sentados, quando pára a música (os rapazes também fazem coreografias lascivas, inclusive imitando sexo oral).

"Essas acusações são um absurdo", diz Verônica Costa, 25 anos, eleita vereadora no ano passado com 37.000 votos, com base no prestígio angariado em bailes que promove com o marido e principal empresário funkeiro, Rômulo Costa, dono da equipe de som Furacão 2000. A polêmica funk reina no próprio seio da família Costa. Rômulo – com passagem na cadeia por suspeita de envolvimento com tráfico de drogas e prostituição – e Verônica são pais do menino Jonathan, de 7 anos, o precoce intérprete da canção em que se diz na idade de pegar "um filé com popozão". O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro entrou com uma representação no Juizado de Menores e conseguiu uma decisão judicial proibindo Jonathan de se apresentar publicamente cantando seu funk e de acompanhar os pais nos bailes. "Meu filho não vai mais falar em potranca, filé ou popozão só porque o juiz não quer", indigna-se Verônica, que acha o vocabulário normalíssimo para a idade dele.

Será que é? Muitos pais, diante da força dos apelos de teor erotizante, ficam na dúvida. Os especialistas, em geral, tendem para uma posição mais conservadora. A professora Leila Cury Tardivo, do Instituto de Psicologia da USP, afirma que propalar atos de natureza sexual não é comportamento a ser incentivado na faixa etária de Jonathan ou mesmo acima dela. "A pré-adolescência é uma fase de preparação para a sexualidade, não para a execução dela", diz Leila. "Saltá-la é como tirar uma fruta verde do pé", compara.



Ricardo Fasanello/Strana

MC Beth: sucesso apregoando que "só um tapinha não dói"





A sensualidade é um dos traços mais ricos e constantes da cultura brasileira. Gilberto Freyre, autor deCasa-Grande & Senzala, escreveu que os colonizadores portugueses chegaram aqui prontos para liberar sua sexualidade – e prontamente partiram da intenção aos fatos. Na Bahia do período colonial, chegou-se a pedir ao rei de Portugal que proibisse que as negras andassem pelas ruas, por excesso de decotes e requebros. Quer dizer, no vai-e-vem das calçadas, a vida pública já registrava um tipo de apelo sexual considerado explícito demais. Hoje, com televisão e internet, sexo é praticamente uma constante, uma marca nacional. "Nos Estados Unidos, você liga a televisão e o que se vê é violência. No Brasil, é sensualidade", compara o antropólogo Roberto DaMatta.

O resultado são crianças, titias e vovós fazendo trenzinho ao som do Tigrão em festinha de aniversário de 3 anos. De um lado, a transformação de danças eróticas em atividade em família ameniza seu impacto, dando-lhes um caráter de brincadeira. De outro, a enxurrada de apelos explicitamente sensuais produz modelos de comportamento de arrepiar os cabelos nas cabeças mais liberais. O problema, argumentam os especialistas, não é que meninas em formação queiram usar calças de cintura bem baixa (modismo irresistível) e chacoalhar o corpinho pré-pubescente – é que percebam isso como modo de ascensão social, em detrimento do estudo e do esforço profissionalizante. "Nos últimos anos, dei muitas palestras para estudantes de 1º grau. Quando perguntava às meninas o que elas queriam ser quando crescessem, a resposta era sempre dançarina de axé, modelo ou apresentadora de televisão. Isso é uma distorção terrível", espanta-se a sexóloga Marta Suplicy, prefeita de São Paulo. A preocupação é tanta que outra cabeça liberal, a psicóloga paulista Rosely Sayão, aconselha os pais a simplesmente não permitir que os filhos adolescentes freqüentem bailes funk. "O adolescente é inconseqüente, não entende o lado lúdico da dança e acha que já é capaz sim de transar, fazer o que quiser", afirma. "Há muita leniência por parte dos pais. Eles têm de deixar de ser coniventes com o que os filhos fazem", emenda Marta Suplicy.

Adianta? "Os jovens já estão transando há muito tempo", responde o cantor Mr. Catra, autor de Me Ter É Bom, constatando o óbvio. Moradora do subúrbio carioca de Inhaúma, Patrícia Orestes, 19 anos, freqüenta o baile de uma favela na Zona Oeste à revelia da família. "Meu pai não sabe que venho aqui. Digo que vou a outro lugar", conta ela, que tem um namorado "que não quer nada sério". Fabiano Gonçalves, 23 anos, cantor de funk, também namora, mas admite que sai com outras meninas e que às vezes rola uma transa, nem sempre de camisinha. "Venho para o baile preparada para dar beijo na boca", avisa Aline Quintes da Silva, 19 anos, moradora da favela de Rio das Pedras. "Mas não gosto de namoro sério." Os rapazes contam que ficam com uma, duas, três meninas em uma mesma noite. "A gente pega todas as garotas que se interessam pelo nosso jeito de dançar", fazem coro os estudantes Eduardo de Souza e Marcelo Santiago, ambos de 19 anos. O próprio Leandro Dionísio dos Santos, 20 anos, estrela do Bonde do Tigrão (Vou passar cerol na mão etc.), administra duas futuras e concomitantes paternidades, com uma garota grávida de seis e outra de sete meses. Nenhuma, ressalva, da dança das cadeiras.




Rebolar é preciso

Casal agarrado ou mulher seminua em rebolado sensual ao som de um ritmo forte e letra com duplo sentido. Quem ainda não viu este filme no Brasil, a terra do sexo-música? As danças vão e vêm ao sabor dos quadris sacolejantes, chovem reclamações e, no fim, tudo passa


Ricardo Chvaicer
Armando Gonçalves

CARNAVAL– O apelo erótico do samba desembocou em nudez no Sambódromo nos anos 90, com TV e tudo. Idéia de Joãosinho Trinta: "Foi uma forma de mudar, uma ousadia" LAMBADA – Esta gafieira moderna adquiriu um caráter família: marido e mulher se agarravam sem pudores na pista. Em 1990, boa parte do planeta imitava a Bahia e lambava lascado


DANÇA DA GARRAFA – A dançarina de perna aberta sobre a garrafa matou o duplo sentido. "Hoje há um sentido único, que é pura grosseria", definiu o crítico José Ramos Tinhorão

SEGURA O TCHAN – O retrato da melodia-serviço: "Bota a mão no joelho, dá uma abaixadinha, vai mexendo gostoso..." Crianças disputavam na TV quem fazia melhor




As cachorras de lá

O funk é, ninguém nega, uma expressão genuína dos subúrbios do Rio de Janeiro. Mas seu processo de fabricação tem menos a ver com o de outros gêneros populares brasileiros, como o axé, e mais em comum com a dance music e o rap americanos. O parentesco com o bate-estaca dance salta aos ouvidos: o funk carioca é cria direta do Miami bass, ritmo surgido na Flórida nos anos 80, distante do funk clássico de um James Brown e caracterizado pela batida forte. Já com o rap a semelhança é mais, por assim dizer, conceitual. Ambos têm letras carregadas de obscenidades e machismo (mais raivosas e explícitas lá, mais malandras aqui), cantadas por personagens controvertidos e saídos de bairros pobres – embora, nesse ponto, um oceano de diamantes e casacos de visom separe os bem-sucedidos rappers americanos dos funkeiros cariocas. Os "versos" da desbocada Tati Quebra-Barraco são tão impublicáveis quanto os das "cachorras" do hip hop americano, como Eve, Foxy Brown ("Use sua língua para achar meu ponto G", diz ela, num momento mais leve) e a mais escandalosa de todas, Lil' Kim. A bronca contra mulheres e homossexuais é tema caro ao rapper americano de maior sucesso no momento, o "tigrão" branquelo Eminem.

Os grupos de funk não tocam nenhum instrumento. As bases sonoras são feitas em estúdio, usando o sampler, aparelho que permite copiar trechos de músicas e reciclá-los numa canção nova. "Às vezes o refrão é bom, mas o resto nem tanto, e a parte ruim é jogada fora", explica o DJ Marlboro, um dos produtores mais requisitados do funk carioca. Assim como na dance music, fabricar sucessos isolados vale mais que investir na carreira de cada artista, e raríssimos se destacam, como o Bonde do Tigrão, cujo CD, segundo a gravadora Sony, acaba de atingir a marca das 100 000 cópias vendidas. No auge da febre funk atual, o campeão de vendas é uma coletânea da equipe de som Furacão 2000, Tornado Muito Nervoso 2, que já dobrou a marca das 350 000 cópias. Em vez de fotos dos artistas, o que se encontra no encarte são mensagens da vereadora popozuda Verônica e de seu marido, Rômulo, dono da Furacão.

Extraída do site Veja on-line, disponivel em http://veja.abril.com.br/280301/p_082.html

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